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Caraterização Histórico-Patrimonial

A extensa diacronia de ocupação humana da Terra Fria Transmontana tem uma origem bastante remota no tempo.

Neste território encontram-se vestígios das diferentes épocas, numa sucessão de mais de vinte mil anos de história: a arte rupestre, de ar livre, cujas expressões mais
arcaicas remontam ao Paleolítico Superior, os monumentos megalíticos, os povoados fortificados da Pré-história Recente e da Proto-história, os sítios de habitat e as necrópoles dos períodos romano e medieval e as construções modernas e contemporâneas, testemunhos das vivências públicas e privadas, eruditas e populares dos habitantes da região.

São diversos os contextos nos quais é possível identificar ocupações sucessivas e mesmo ininterruptas do ponto de vista cronológico. Contudo, persistem lacunas nos
conhecimentos disponíveis, hiatos temporais desprovidos de vestígios que permitam uma compreensão totalmente abrangente do devir histórico. Permanecem por esclarecer questões relativas a momentos de transição, evolução e interrelações populacionais e culturais com palco na TFT. 

Do Paleolítico Superior, quando a evolução antropológica atinge já formas atuais, e o homem, essencialmente nómada e sujeito a rigores climáticos extremos, se abrigava em grutas e acidentes naturais, conservam-se nesta região algumas reminiscências. No concelho de Bragança, algumas rochas como as do Pousadouro (Grijó de Parada), de Sampaio (Milhão) e da Fraga Escrevida (Paradinha Nova) são testemunhos deste período, contendo gravuras de auroques e cavalos com mais de 20.000 anos.

Outros vestígios da Pré-História Antiga poderão encontrar-se em contextos de cascalheiras, sobre terraços fluviais, como as jazidas de Chão dos Palheirinhos ou Peinada, também nas margens do rio Sabor. Nestas é possível identificar alguns artefactos líticos.

Os vestígios da Pré-História Recente são muito mais abundantes, no Nordeste Transmontano, relativamente ao período anterior, embora sejam ainda insuficientes
para estabelecer um quadro coerente de povoamento. A amenização do clima fixou novas espécies da fauna e da flora e o homem adaptou-se ao ar livre e começou
a desenvolver relações mais estáveis com a Natureza, construindo e aproveitando recursos numa espiral evolutiva. Iniciou a prática da agricultura, domesticou animais, produziu utensílios em cerâmica e tecidos ainda que grosseiros, talhou e poliu instrumentos em pedra e criou hábitos sedentários, que derivaram na estabilização dos primeiros povoados.

O megalitismo não é um fenómeno tão expressivo quanto o de Trás-os-Montes ocidental, mas registam-se diversos monumentos funerários, essencialmente mamoas ou montes artificiais, isoladas, como Tumbeirinho de Donai, Marcão e Coroa de Travanca ou Marmolina e Campina ou mais ou menos agrupadas, como em Pena Mosqueira de Sanhoane. Estes monumentos registam-se essencialmente em zonas aplanadas e evitam a proximidade de encostas ou de afloramentos rochosos. Tudo parece indicar que as mamoas foram concebidas para ter destaque visual, para se evidenciarem na paisagem. A dimensão do tumulus pode ser bastante variável, assim como a sua imposição volumétrica no terreno. São estes fatores de uma linguagem simbólica, que articula os monumentos e a topografia. Os enterramentos em gruta também se encontram atestados neste período na Lorga de Dine de Vinhais e também provavelmente nas Grutas de Ferreiros de Miranda do Douro.

Com o começo da utilização das tecnologias de fundição dos metais, que se inicia com o cobre, reforça-se o espírito gregário da população, que se organiza em pequenas povoações, muitas vezes fortificadas e implantadas em locais estratégicos, quer por questões de defesa, quer pela proximidade das áreas de cultivo ou de
captação de matérias-primas. 

Os núcleos de povoamento conhecidos encontram-se balizados entre o Calcolítico e a Idade do Bronze Inicial. Registam-se povoados abertos como o do Raio ou Urreta da Malhada, mas também povoados fortificados, como o Castro de Sacóias e o Castro de S. João das Arribas. Mas, muitos achados esporádicos documentam também a ocupação do território na Pré-História Recente, quer sejam instrumentos líticos, sobretudo machados, quer metálicos, designadamente alabardas.

As estações de arte rupestre, em rochas de ar livre, como o Rebolhão e em abrigos sob rocha os abrigos das Fragas do Diabo e os abrigos da Solhapa e Fraga da Lapa integram também esta fase cronológica. Nesta fase situar-se-ão as designadas “unhas do diabo”, gravuras esquemáticas lineares. Salienta-se que as gravuras do tipo cruciforme são de interpretação complexa, porque englobam um leque muito variado de motivos e por vezes são linearmente interpretadas como símbolos de cristianização, marcas de termo de cronologia medieval e moderna, ignorando-se outros tipos de insculturas que surgem em associação com estas.

Destaca-se ainda na pintura, no âmbito da arte rupestre da Pré-história Recente, a Fraga da Letra, que consiste num pequeno abrigo com pinturas de cinco figuras
antropomórficas esquemáticas, elaboradas com ocre vermelho alaranjado, localizado na vertente sudoeste das falésias quartzíticas do Castelo de Penas Roías.

Mais raras parecem ser as manifestações artísticas de ar livre imputáveis à Idade do Ferro, como a da Fraga do Puio de Picote, onde se destaca uma representação de figura semiesquemática de arqueiro, em posição de lançamento.

Achados de cronologia mais recente, nomeadamente do Bronze Final, como os do esconderijo de fundidor de Valbom-Deilão, constituído por seis braceletes e um machado de talão com argolas, contribuem para o conhecimento, ainda que incipiente, da Idade do Bronze. 

Os sítios arqueológicos da Urreta, Malhada, Urrós e do Canto da Serra, respetivamente nos concelhos de Bragança, de Miranda do Douro, de Mogadouro e de Vimioso, são exemplos de povoados abertos coevos. 

Os dados disponíveis não permitem avaliar com segurança como evoluiu a ocupação do território da Terra Fria entre a Pré-história Recente e a Idade do Ferro, embora se possa supor que uma parte dos povoados fortificados deste período seja testemunho de uma continuidade de povoamento, pelo menos desde o final da Idade do Bronze, a exemplo dos testemunhos do Castelo de Rebordãos, da Cigaduenha de Picote ou do Castro de S. João de Arribas. Estes povoados têm em comum a implantação em posições topográficas com amplos controlos territoriais ou de corredores naturais de circulação, esboçando um certo ordenamento territorial.

Durante a Idade do Ferro, a rede de povoamento adensa-se e, em castelos graníticos, nos cumes altos dos contrafortes montanhosos, em cabeços destacados no interior de planaltos ou nos relevos em esporão distribuídos ao longo dos vales fluviais, surgem povoados fortificados (castros), beneficiando quase sempre de razoáveis condições naturais de defesa, tal como de privilegiada visibilidade e controlo geoestratégico. São, de uma forma geral, povoados de dimensões médias ou reduzidas, com sistemas defensivos mais ou menos elaborados, integrando muralhas, construídas em alvenaria seca ou integrando areias e argilas, associadas, em alguns casos, a torreões, fossos, parapeitos e campos de pedras fincadas, mas aproveitando sempre que possível as possibilidades de defesa oferecidas pela própria topografia. 

Salienta-se neste período a presença de esculturas zoomórficas, vulgarmente designadas como berrões, mas que representam porcos e touros, de pedra, que poderiam ter tido no contexto proto-histórico uma função apotropaica, como protetoras de povoados e do gado, mas também de demarcação de pastos, ao mesmo tempo que simbolizariam a proeminência de determinadas elites sociais, envergando, assim, um caráter heráldico. Como exemplos citam-se o porco de Bragança, Picote, Coelhoso e Faílde ou o touro de Parada de Infanções. Em época romana a representação do berrão adquire um sentido funerário fundamental. Existindo como exemplares deste período o porco em Duas Igrejas e Picote e um touro em Malhadas.

Com a pax romana entre 29 e 19 a.C. durante o império de Augusto, a região nordestina começou a assimilar os contributos de uma estrutura civilizacional mais complexa, iniciando-se um longo processo de aculturação que permitiu, contudo, a sobrevivência de muitos costumes e tradições arcaicas que haveriam de influenciar decisivamente a identidade da população. Festividades profanas associadas ao calendário litúrgico, o ciclo das colheitas, costumes e tradições com expressão na indumentária, na gastronomia, na música, poderão ser ainda hoje reminiscências de um passado longínquo.

A romanização deixou na TFT marcas profundas, designadamente na estrutura do povoamento e na rede viária que lhe estava associada. Provavelmente com sede em Castro de Avelãs, esta região fazia parte da civitas Zoelarum, integrada no conventus Asturum. A grande maioria dos antigos povoados foi-se adaptando ao modus vivendi romano, deixando vastos vestígios em castros como o da Torre de Celas ou o Castelo de Ervedosa, em Vinhais; o do Alto do Carocedo e o do Lombeiro Branco, em Bragança; a Terronha de Argozelo, em Vimioso; o Castro Vicente e o de Vilarinho de Galegos, em Mogadouro; ou o de S. João das Arribas e o de S. Martinho de Angueira, em Miranda do Douro.

Muitos outros pólos de habitat de origem romana foram identificados, como as villae e casais rurais, com profusão de tegulae, de epígrafes, de numismas e de objetos diversos. A estas ocorrências poderão ainda acrescentar-se outros testemunhos de atividades inerentes à sociedade romanizada. São de referência incontornável os vestígios da complexa exploração aurífera das Minas de França, na Serra de Montesinho ou os troços sobreviventes da Via XVII do Itinerário de Antonino, que atravessava transversalmente os atuais concelhos de Bragança e de Vinhais. 

Salienta-se ainda que esta região detém uma das maiores concentrações de achados epigráficos, sobretudo funerários, mas também votivos e honoríficos.

Com o declínio da dominação romana e as invasões sucessivas de bárbaros germânicos, toda a região se remete a um isolamento que haveria de durar muitos séculos, enquistando-se as comunidades sobreviventes com o reforço de relações comunitárias que ainda hoje se revelam em muitas aldeias do Montesinho e expressivamente sublimadas em Rio de Onor. Do período de dominação de suevos e visigodos conhecem-se escassas referências arqueológicas ou textuais que permitam reconstituir os quadros de povoamento. Porém, o remanescente Parochiale suévico revela a estrutura administrativa que serviu de base à organização eclesiástica, onde se filiam muitas das freguesias do norte do país. Os pagi de Brigantia e Astiatico referidos no Parochiale na diocese de Bracara e em território que corresponde à atual TFT, seriam aglomerados de carácter urbano que dariam origem às terras medievais de Bragança e de Miranda, cujas sedes poderão eventualmente identificar-se com Castro de Avelãs e com Picote.

As dissenções internas que a feudalização gerou no reino visigótico tornaram-no incapaz de resistir à invasão muçulmana que se firmou em Guadalete em 711. Contudo, o domínio islâmico não se conseguiu afirmar efetivamente nos territórios montanhosos a norte do Douro, sendo por isso reduzida a influência exercida na região nordestina, relativamente próxima do reduto asturiano de onde a população indígena promovia algaras que haveriam de consolidar a Reconquista.

Destes tempos conturbados da Alta Idade Média ficaram vestígios dispersos nas reocupações de alguns povoados pré-existentes, em ruínas de templos e em necrópoles e sepulturas rupestres isoladas descobertas ocasionalmente ou em campanhas arqueológicas, a maioria, atualmente, não observável. São, no entanto assinaláveis as ruínas dos castelos de Rebordãos e de Pinela, hoje reduzidos ao embasamento roqueiro, com escassos indícios de alvenarias argamassadas, que se presume possam anteceder a formação da nacionalidade.

Também a origem da tipologia de enterramento em sepulturas escavadas na rocha aparentemente é anterior ao processo da Reconquista cristã, mas existirão diversos exemplares tardios que lhe são posteriores, salientam-se as necrópoles de Santo André de Algosinho e São Fagundo, ambas no concelho de Mogadouro. 

Provavelmente, aquando da difusão do Cristianismo, antigos locais de culto indígena foram convertidos a esta doutrina, sucedendo-se as reconstruções que foram agregando os vestígios remanescentes das edificações primitivas, resumindo-se o seu registo a escassas estruturas soterradas e a fragmentos de cerâmica nas imediações. 

Restam, contudo, nesta região, alguns templos de filiação românica que conservam ainda indícios da sua primitiva fábrica. Um dos mais significativos é a Igreja de São Facundo, matriz da antiga paróquia de Crespos, junto à vila de Vinhais, que remonta aos inícios da nacionalidade. Conserva ainda um tosco conjunto escultórico, relevado no frontispício, que invoca a Santíssima Trindade, mas modificações posteriores adulteraram-lhe significativamente o traçado original. No topo meridional da TFT, também nas igrejas de Cércio e de São Pedro da Silva o formulário românico é ainda percetível, embora já numa fase tardia, de transição para o gótico. No extremo ocidental localiza-se a Igreja Paroquial de Algosinho, que possui uma insuspeitada monumentalidade interior, embora modesta, que, face às condicionantes histórico-geográficas, se torna difícil de explicar.

Curiosamente, o gosto românico ficou fortemente arreigado nesta região, em particular no concelho de Miranda do Douro, persistindo ainda a sua gramática tardia quando a exuberância gótica já entrava em declínio. 

A todos os títulos notável, destaca-se o que resta da igreja do antigo mosteiro beneditino de Castro de Avelãs, muito próximo da cidade de Bragança: uma imponente cabeceira constituída por uma ábside e dois absidíolos, construída em ladrilho de tijolo, com três níveis de arcadas cegas de duplo arco, de filiação românica, conceção corrente na vizinha província espanhola de Leon, com paralelo na zona de Zamora, Toro, Salamanca e Sahagún, mas verdadeiramente singular na história da arquitetura portuguesa.

Firmados os limites territoriais do novo reino de Portugal, consolidada a autoridade régia e estabelecidos os quadros dos poderes civis e eclesiásticos, estava aberto o caminho para a estabilidade social e política que permitiria a introdução de novos conceitos em todos os domínios da cultura. Iniciava-se o séc. XIII e estavam criadas as condições para uma recetividade crescente à influência dos formulários góticos que então floresciam em toda a Europa.

O controle militar das fronteiras exigiu a reconstrução de algumas fortalezas antigas e a construção de outras em locais estratégicos.

Desta época datam, o castelo de Algoso, ainda razoavelmente conservado e cujos primeiros vestígios remontam ao Calcolítico; o de Vinhais, cujos vestígios remontam à Idade do Ferro; o de Miranda do Douro e o de Bragança, que viriam nos séculos subsequentes a tomar a forma que atualmente apresentam, envolvendo toda a povoação.

Anteriores a este período são os castelos de Penas Roias e Mogadouro, cujos vestígios remontam à época romana e foram praças templárias no século XII.

Já os castelos de Vimioso e Outeiro terão sido construídos posteriormente, sendo contudo incerta a sua fundação, já que deles pouco mais resta para além de alguns vestígios destroçados e escassas referências documentais.

É também no séc. XIV que se começa a afirmar o poder municipal, alicerçado em privilégios e prerrogativas que a custo se vinham alcançando há mais de dois séculos. A outorga de forais, sucessivamente confirmados e regulados, definia encargos e direitos administrados pelo município e a jurisdição estava simbolicamente representada pelo pelourinho que atestava a sua sujeição à Coroa ou a donatários civis ou eclesiásticos. Muitos destes pelourinhos se conservam ainda na TFT, com diferentes configurações, naturalmente já não coevas desta época, mas que atestam os pergaminhos da sua origem. Muitos correspondem mesmo a concelhos e donatarias extintas e encontram-se eretos em povoados isolados e reduzidos, que foram cabeças de extensos territórios há vários séculos atrás. É o caso dos de Rebordãos, Failde, Outeiro, Rebordainhos, Vila Franca, Sanceriz e Frieira, em Bragança; Azinhoso, Bemposta, Castro Vicente e Penas Roias, em Mogadouro; Algoso, em Vimioso; e Paçó, Vilar Seco da Lomba e Ervedosa, em Vinhais. As sedes dos concelhos de Bragança, Mogadouro, Vimioso e Vinhais conservam, também elas, o seu antigo pelourinho, merecendo destaque o primeiro por ser constituído por uma picota quinhentista fincada num berrão proto-histórico. Os pelourinhos ou as picotas, a par da cadeia e da forca, marcavam os principais espaços punitivos concelhios.

Mas a estrutura administrativa judicial da região implicou igualmente a construção de edifícios tão notáveis como a Domus Municipalis de Bragança, edifício de traça medieval, fruto de revivalismo arquitetónico.

Sobre as pontes da Terra Fria, as fontes históricas conhecidas são avaras na disponibilização de informação.

São estruturas patrimonialmente relevantes, cujo valor patrimonial se reporta à monumentalidade inerente, mas também à função utilitária, que diversos exemplares ainda cumprem na atualidade. Algumas pontes, algumas das quais com eventual filiação romana, sofreram profundas remodelações na Idade Moderna, com recurso a materiais e tecnologias arcaicas, em que a configuração dos lumes e dos talhamares pouco se terá alterado, de tal forma que se torna hoje difícil garantir a sua época de construção. 

Estas foram tanto mais relevantes nesta região acidentada, sulcada por vales profundos e alcantilados e serviam uma rede viária escassa, mas imprescindível à sobrevivência de povoados remotos e isolados e um precário sistema de comunicações. De facto, a história das vias medievais e modernas é a história dos caminhos regionais que serviam as pequenas povoações e as cidades mais próximas, distinguindo-se nos seus propósitos dos grandes projetos viários planificados, da época romana.

Entre estas, merecem referência as pontes de Ranca, Soeira e Moimenta, sobre o Tuela; as do rio Sabor entre Santulhão e Izeda; a Ponte de Gimonde lançada sobre as águas dos rios Igrejas e de Onor, a de Gestosa, sobre o Rabaçal; a de Frieira, sobre a ribeira de Vilalva; a Ponte e calçada de Algoso e a Ponte de S. Joanico, sobre o Angueira; as de Macedo do Peso e Gamona, em São Martinho do Peso; as do rio Maçãs, entre Vimioso e Carção, entre Algoso e Junqueira e entre Pinelo e Argozelo, esta com um arco ogival de clara influência gótica.

À semelhança das pontes, também as fontes públicas proveram necessidades e muitas desempenham ainda a sua função no abastecimento de água às povoações. As mais representativas desta região são as fontes de mergulho, onde a cota de drenagem está acima do reservatório. As de S. Julião de Palácios, de Soutelo, de Variz e de Babe, com coberturas assentes em arcos de volta inteira, ligeiramente apontado no caso da última, são com certeza testemunhos da sobrevivência de construções arcaicas.

Na transição do séc. XV para o XVI a Europa é dominada por um amplo movimento de renovação cultural alicerçado na compreensão e divulgação das culturas clássicas, grega e latina, que rompe com os valores escolásticos da Idade Média e promove a formação de um “homem-novo” que o progresso económico da Europa pode já assegurar. Este movimento percorre Portugal ao longo do séc. XVI, estimula o desenvolvimento e alarga os horizontes culturais, refletindo-se eloquentemente na arte, na literatura, na ciência e no ensino. O nordeste transmontano, apesar do relativo isolamento dos grandes centros nacionais de irradiação cultural, é também influenciado pelo que melhor se fazia nas grandes cidades de Espanha mais próximas desta região. O chamado “estilo manuelino”, que sob a gramática renascentista caldeou contributos exóticos do imenso Império, foi a mais genuína expressão artística do Portugal de Quinhentos, mas teve reflexo pouco significativo nas produções artísticas desta região, estando patente na ornamentação singela de algumas portadas do casario urbano de Bragança e de Miranda do Douro.

O melhor exemplo da disciplina renascentista é a Sé de Miranda do Douro, iniciada em 1552. Pela sua imponência deve ter impressionado certamente uma população ainda desajustada dos cânones rigorosos da Renascença, mas não foi, talvez por esse mesmo desajustamento e pela efetiva parcimónia dos recursos, uma fonte de abundante inspiração. Para além da Misericórdia de Miranda e das paroquiais de Sendim, Caçarelhos, Algoso e Vimioso, que incluíram nas suas frontarias pórticos flanqueados por colunas e rematados por expressivos entablamentos, não se registam outras iniciativas deste tipo dignas de nota. Contudo, a reincorporação das duas torres no prospeto principal da Sé fez escola e muitas outras igrejas lhe seguiriam mais tarde o exemplo, como em Moimenta e ainda em Vimioso. No entanto, a maioria haveria de conservar os seus austeros campanários, com diversas configurações, quase sempre erguidos sobre o plano das fachadas. Outeiro (Igreja Matriz), Rabal, Carragosa e Vale de Janeiro são bons exemplos desta solução que ainda hoje se afigura como imagem muito explícita desta região transmontana.

Já sob a influência renascentista e até mesmo aos alvores do barroco, a pobreza arquitetónica continuou sendo uma realidade comum nas comunidades rurais, mantendo-se ainda muito do vocabulário medieval, o que torna por vezes difícil a determinação exata de cronologias. 

Não obstante algumas influências pontuais, que se traduziram geralmente em soluções aligeiradas ou ingenuamente interpretadas pelos práticos e artistas locais,
persistiram as planimetrias longitudinais em nave única e o recurso a contrafortes exteriores (Vimioso, Algoso, Duas Igrejas). O madeiramento nas coberturas foi regra geral, com exceção honrosa nas paróquias de Vimioso e de Pinela e, sobretudo, na Igreja do Santo Cristo de Outeiro, onde a teia artesoada da abóbada atinge dimensão e lavor excecionais.

Também nos paramentos exteriores se revela a simplicidade, sendo comuns as verticalidades limpas e até fachadas cegas, como se vê em Réfega, Vale de Frades, Cércio e na primitiva Matriz de Outeiro.

A influência do espírito reformista simplificou algumas soluções construtivas, designadamente com a introdução de lintéis retos nos vãos, muitas vezes coroados por
frontões que constituem, em alguns casos, o único ornamento das fachadas, posto que o barroco, a seu tempo, se encarregaria de decorar alguns a preceito, como
se pode ver no magnífico exemplar trilobado da Matriz de Vilar Seco de Lomba.

Com a ortodoxia da disciplina tridentina nasceu o maneirismo, que introduziu uma nova tendência nas artes e difundiu o gosto pelos retábulos dourados e policromados no interior dos templos, sacrificando os revestimentos rurais a fresco generalizados desde a Idade Média. Destas pinturas restam, por isso, parcos vestígios em Duas Igrejas, Malhadas, Cércio, Teixeira, Réfega, na Capela da Senhora da Ribeira, no “lhapo” de Picote e em Azinhoso.

No domínio da arquitetura civil o renascimento e o maneirismo não tiveram expressão excecional. Será o barroco, custeado pelo farto ouro brasileiro a partir de meados do séc. XVII, que imprimirá uma imagem forte e inconfundível e que se fará sentir até ao mais recôndito lugar, no exterior e no interior dos edifícios e em todas as expressões da arte.

A ostentação barroca enfatizou-se sobretudo na arte religiosa, no interior dos templos, onde a riqueza dos retábulos de talha dourada constituem frequentemente, ainda hoje, uma surpresa ao visitante menos impressionado com o modelo arquitetónico.

O Convento de S. Francisco de Vinhais, a Igreja de S. Francisco e a Misericórdia de Bragança, a Matriz de Mogadouro, o Santo Cristo de Outeiro ou as paroquiais de Zoio, Rabal, Alimonde, Vila Franca, Vale de Angueira, Algoso, Argozelo, Vimioso e Tuizelo, são apenas algumas das muitas referências dignas de nota.

Mas também na arquitetura civil se difundiu e brilhou o gosto barroco. Casas senhoriais como muitas que se veem em Bragança e Miranda do Douro, a dos Condes de Vinhais, a de Vilar de Ossos, a de Argozelo ou o Solar dos Pimentéis, pontes, fontes e cruzeiros foram construídos ou remodelados ao longo de todo o século XVII e XVIII e ainda hoje atestam a grandeza daquela época.

Com a sedimentação das instituições políticas e administrativas a partir do séc. XIX começaram a aparecer os edifícios públicos construídos de novo ou resultantes da adaptação dos bens expropriados à Igreja. Em todas as sedes de concelho, mas particularmente em Bragança, tem-se excelentes edifícios, muitos contemporâneos,
bem integrados na malha urbana, que são já referências importantes no acervo patrimonial da região.